03/07/2007 - Um ídolo de longa duração
Hamilton tem tudo para ser um ídolo
para os próximos 10 anos ou mais
Que a inglesa McLaren anda com o entusiasmo pelo inglês Lewis Hamilton em alta, nem Ron Dennis consegue esconder. Mas nem isso e nem a enorme pressão da mídia inglesa vão mudar a linha de ação traçada para este campeonato, que traz as características de frieza e inteligência que costumam reger as decisões da McLaren. Quem pagou uma boa grana para trazer um bicampeão mundial tem, por obrigação, dar a este piloto, no mínimo, a preferência na escolha da estratégia de corrida. O resto é com ele. No exemplo de Mônaco, a equipe deu a Alonso o direito de escolha: largar mais leve e ser o primeiro a fazer o pit stop, ou largar com quase 3 quilos mais (quase 4 litros) e fazer o pit stop uma volta depois. Se ficasse com a primeira opção, ele assumiria a obrigação de fazer a pole e, não cometendo erro, ganhar a corrida. Ele topou os dois desafios e cumpriu à risca.
O papel de Ron Dennis este ano é tão claro e dentro da lógica, que não pode ser contestado. Sorte dele ter criado um estreante tão competente que possa merecer as mesmas atenções de um bicampeão. Mas em 2007 é um direito de Alonso escolher a estratégia antes de Hamilton. Qualquer chefe de bom senso faria o mesmo. Com isso, ele está jogando responsabilidade nas costas de um bicampeão e tirando responsabilidade das costas de um estreante.
A mídia inglesa não vê lógica nisso pela pressa de ter um superastro na Fórmula 1. Nos 57 anos de história do Mundial, embora tenha feito seis campeões (Mike Hawthorne, Graham Hill, John Surtees, James Hunt, Nigel Mansell e Damon Hill), a Inglaterra, país-sede do automobilismo de competição no mundo, teve como único verdadeiro ídolo Stirling Moss, considerado um dos pilotos mais talentosos da história, mas também um dos mais azarados - foi vice-campeão quatro vezes e chegou em terceiro outras três, sem nunca ter ganhado um título. Como eu não vi Stirling Moss pilotando (já o entrevistei muitas vezes e sei o quanto ele é adorado pelo público), para mim o grande piloto inglês é Nigel Mansell. Ganhou menos campeonatos do que merecia porque a instabilidade emocional muitas vezes andava na contramão do seu talento, mas os números de Mansell não correspondem aos de um piloto com apenas um título – 31 vitórias, 32 poles, 482 pontos, 9.642 quilômetros na liderança de corridas.
Passados 15 anos do único título de Mansell, de repente surge um Lewis Hamilton que tem todos os componentes de um superídolo. Tem talento para se garantir entre os melhores do mundo durante os próximos 10 anos ou mais, além de uma história de infância pobre e preconceitos raciais que são ingredientes essenciais para um final feliz como o do golfista americano Tiger Woods. Já vi outros casos parecidos, mas Hamilton tem mesmo algo a mais. Em Mônaco, no último fim de semana, eu freqüentei um barco de amigos, ancorado ao lado do barco onde Hamilton se hospedou com o pai, dois irmãos e amigos. Cada vez que ele saía andando pelo píer a caminho do paddock, cercado por muita gente, ao dar um autógrafo ou deixar-se fotografar, ele fazia isso de forma muito atenciosa. E ainda fui testemunha da quase reverência com que ele recebeu Viviane Senna, apresentada pelo filho Bruno Senna. Atitudes que já não se vê na atual F-1.
Extraido da Edição nº 83 da Revista Speedway