10/08/2007 - Um ser de outro planeta
Escrever sobre Lewis Hamilton é uma alegria. Tem muito a ser dito sobre este rapaz que parece ter caído no estranho, fechado e complexo mundo da
F-1 como um ser de outro planeta. Ele é simples, dá atenção a todo mundo, sorri, traz no rosto os traços da humildade. Mas onde fica, no caso de Hamilton, a pressão que tanto afeta as pessoas que vivem nesse meio? Vou ficar com as palavras do senhor Anthony, pai dele, falando da parte que ele mesmo considera mais interessante no filho: “Ele não sente pressão porque está aqui para correr, não para ter sempre uma grande atuação, não para defender o emprego de piloto, mas para fazer o que gosta. Ele ama correr, se a gente pudesse ver a expressão do Lewis quando está correndo, veríamos sempre um sorriso de satisfação”.
Bom, então ele é um tipo de antipiloto da atual Fórmula 1. O normal é o sujeito viver tenso, constantemente sob pressão, dentro e fora das corridas, algo que já fez muita gente boa cair fora por não suportar a situação. Hamilton parece ser diferente. É cedo para afirmar, mas, por enquanto, ele leva tudo numa boa. Ainda hoje, líder do campeonato e, portanto, adversário a ser batido por todos, ele troca amabilidades com Felipe Massa a caminho do pódio, mostra surpresa quando lhe contam que Alonso botou a boca no mundo nos jornais espanhóis e continua sendo uma pessoa simples.
A impressão que se tem é que Hamilton faz tudo com muita facilidade. Claro que não é bem assim. O correto seria dizer naturalidade. Preparado nas pistas de kart desde os 9 anos de idade, adotado pela McLaren aos 11, Lewis ganhou os campeonatos de Fórmula Renault, Fórmula 3 e o da GP-2 graças ao enorme talento, à dedicação e também às milhares de horas passadas diante de um vídeogame e, mais recentemente, um simulador de pistas. Mas ele não é o primeiro a fazer isso. Jacques Villeneuve se preparou assim em 96 antes de entrar na F-1 e deu certo. Foi até foi campeão. E estava longe de ser um gênio, como se viu depois.
Recebi e-mail do leitor Mário Albano Júnior querendo saber que simulador é este capaz de criar num estreante condições para que ele venha a mudar os paradigmas da F-1. Ser estreante já não é desculpa para nada. Eu nunca vi o simulador da McLaren e imagino que nem esteja à disposição de qualquer um que queira conhecê-lo. Mas garanto que o efeito não seria o mesmo em um sujeito sem o mesmo talento. É claro também que Hamilton não estaria fazendo tudo isso se não tivesse nas mãos um grande carro. Schumacher, Senna, Piquet e Alonso estrearam na F-1 em equipes pequenas. Ele já pegou uma McLaren em ótima fase. Mas não vamos esquecer também que é o mesmo carro de Alonso, um bicampeão mundial que derrotou Schumacher dois anos seguidos, e hoje anda perdendo a calma na disputa com o companheiro estreante. Hoje fica até engraçado lembrar o quanto Alonso lutou para que a McLaren escolhesse o espanhol Pedro de La Rosa como segundo piloto. Não era por patriotismo.
Quanta coisa curiosa envolve o surgimento de um ídolo assim. Por exemplo, fiquei sabendo pelo pai de Hamilton que foi através de um brinquedo que ele percebeu a habilidade de Lewis ao dirigir um carro de controle remoto aos 4 anos de idade. E foi numa viagem em família pela Espanha, aos 6 anos, que ele entrou pela primeira vez em um kart. O Alonso deve estar odiando os kartódromos espanhóis.
Extraido da Edição nº 84 da Revista Speedway