09/11/2007 - A F-1 correu sério risco
O Jayme Brito, nosso produtor da F-1 há 15 anos, não se cansava de dizer no domingo à noite que nunca tinha passado três dias tão agitados em um GP como este da Bélgica. Exceção, claro, ao da morte de Senna. O sentimento do Jayme era de satisfação, pelas dificuldades vencidas desde a quinta-feira com um julgamento que acontecia em Paris, a 350 quilômetros de Spa-Francorchamps, onde toda a F-1 aguardava o resultado, e mais a obrigação de interpretar o que se ouvia de verdades, mentiras, precipitações, anúncios falsos, fofocas, revanchismos e armações naquele ambiente de guerra em que se transformou o autódromo.
Em cada GP a gente torce para que saia tudo dentro da normalidade e, mesmo assim, o trabalho já não é pouco. Mas quando ocorre uma confusão dessas, com tanta gente envolvida e tantas versões diferentes, exige de nós todos um desdobramento que põe à prova a competência de cada um. Como saiu tudo direito, a alegria foi o prato principal do jantar do domingo em um simpático bistrô de Malmedy. O jantar do domingo normalmente já é o melhor momento de um fim de semana de GP quando o trabalho sai bem-feito. Neste da Bélgica, mais do que nunca. Tem razão o Jayme.
Ter vivido esta confusão de Spa rendeu mais um capítulo do livro que pretendo escrever. Eu chego a pensar que a crise envolvendo Ferrari e McLaren, em primeiro plano, mas trazendo vários outros nomes importantes, foi o estopim de uma bomba que estava para explodir havia algum tempo. Talvez tenha sido até uma sorte aparecer agora um caso com evidências tão claras a ponto de atrair toda a atenção para o que pareceu ser uma guerra entre duas equipes rivais. Sem o toque de Bernie Ecclestone, com sua inteligência e inegável diplomacia, seria mais do que isso e o incêndio poderia estar ainda se alastrando, comprometendo a credibilidade que a Fórmula 1 alcançou como competição esportiva, disputa de tecnologia a serviço da indústria do automóvel e, além disso tudo, pondo em risco um negócio altamente lucrativo para os donos de equipes.
De que outra forma se pode entender a McLaren ter desistido de apelar contra a maior multa da história de uma competição esportiva, mesmo dizendo ter provas concretas de que o carro atual da Renault tem componentes copiados dela através de desenhos fornecidos por um ex-funcionário que se transferiu para a equipe francesa? Se esta acusação fosse levada ao tribunal, seria como iniciar um novo capítulo, que poderia se desdobrar em outros tantos. E como ficariam as montadoras, ícones como Mercedes-Benz, Renault, Fiat, Honda, Toyota, BMW? Gigantes da indústria, e não apenas equipes de competição. A Mercedes-Benz, por exemplo, que não tem nada a ver com o que se passou dentro da McLaren, certamente não gostou nada da confusão criada pela sua parceira de pista. A Renault tem um presidente que, declaradamente, não é um fã do esporte automobilístico. A instituição Fórmula 1 correu sério risco. E um homem percebeu isso em tempo.
Bernie Ecclestone agiu como quem criou esta máquina e a fez funcionar com perfeição nas últimas três décadas. E só quem estava dentro do motor-home da FOM na tarde de sábado pôde testemunhar o quanto ele ficou irritado ao ver o presidente da FIA, Max Mosley, reacender a fogueira ao desfilar pelo paddock confessando que era a favor da exclusão total da McLaren em 2007 e 2008, mas tinha sido voto vencido no tribunal.
Extraido da Edição nº 86 da Revista Speedway