24/06/2008 - Contra mau-olhado
Fui a Mônaco bem antes do grande prêmio e vi como os moradores suportam 90 dias de bagunça para manter uma tradição
Duas semanas atrás, observando os troféus que Felipe Massa guarda na sala de seu apartamento em Mônaco, vi os dois que ele já havia conquistado na Turquia, com o mesmo formato circular que é referência a um símbolo conhecido da cultura popular turca, tido como amuleto contra o mau-olhado - nazar boncuk - e muito usado desde a infância como pulseira, colar, brinco, anel, chaveiro, peça de roupa, cinto, sapato e – pra não desafiar crenças populares – é pendurado na porta de entrada das casas. Felipe agora levou um terceiro desses troféus para a estante da sua sala. Gente boa como é, ele não deve temer mau-olhado, mas quem vive a estranha situação de trabalhar e conviver com o sujeito que é o seu maior rival deve ter o dobro de cuidado. Pelo que sei, Kimi Raikkonen é uma pessoa do bem. Isso ajuda, mas o ambiente competitivo da F-1 torna bastante difícil a convivência pacífica.
Vejam a situação do momento. A Ferrari ganhou 4 corridas em 5. Duas com Raikkonen, duas com Massa. Como acreditar que o título não ficará com um dos dois no final do ano? O finlandês está em vantagem, mas ainda faltam 13 corridas. No ano passado, até a 12ª etapa, faltando 5 para se conhecer o campeão, Kimi era o 4º colocado, atrás de Massa, Alonso e Hamilton. O duro para Felipe é saber que, como o momento é propício para dobradinhas da Ferrari, cada vez que chegar à frente de Kimi é grande a chance de tirar apenas dois pontos da vantagem do finlandês, que era de 11 antes da Turquia. O lucro no domingo passado foi maior - numa tacada só descontou 4 pontos, ajudado pela brilhante atuação de Lewis Hamilton, que se colocou entre os dois ferraristas na linha de chegada ao cumprir estratégia inteligente e arriscada da McLaren. A vantagem ainda é de 7 pontos, mas é exatamente a que Massa tinha a favor dele (59 a 52) depois 10ª etapa do ano passado. E o campeão foi o finlandês.
No esporte a motor, como sempre existem equipes de dois carros ou duas motos, o maior rival de um piloto é sempre seu companheiro de equipe. São os dois que contam com o mesmo equipamento e, portanto, a comparação dos resultados de ambos é o único meio de avaliação confiável. A não ser em casos excepcionais, como o de Schumacher na Ferrari, quando o companheiro da vez (Irvine, Rubinho ou Massa) até poderia ter o mesmo equipamento, mas acabava ficando com as sobras na hora de se definir a estratégia de treinos e corrida.
Da Ferrari pra trás, a F-1 está mais dividida. McLaren e BMW disputam a liderança deste segundo grupo, mas já não tão distantes de Red Bull, Williams, Toyota e Renault. É interessante observar a evolução desses carros, sempre presentes na disputa de posições da terceira à quinta fila dos grids, e são eles que estão salvando as corridas da monotonia.
Agora vem o circuito de Mônaco, onde costumam aparecer as zebras. No ano passado, quando levou um passeio da McLaren, a Ferrari concluiu que seu carro comprido entre-eixos poderia ser diminuído, ao mesmo tempo em que a McLaren aumentava o seu para ser mais competitiva nos circuitos velozes. Ainda não dá para dizer que a receita da Ferrari foi mais eficiente, porque a McLaren dominou no circuito de rua de Melbourne. Mas no geral a McLaren ficou para trás. Vamos ver na semana que vem. Aliás, desta vez estive em Mônaco mais cedo e pude ver pista e arquibancadas sendo montados. Agora sei o que os moradores suportam durante 90 dias em troca de manter uma tradição.
Extraido da Edição nº 90 da Revista Speedway