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28/10/2008 - Caminhada na madruga

Felipe brincou com a mãe falando da dureza do muro e Rubinho se divertiu

Da janela vejo quase toda a pista, mas não é privilégio do meu hotel. O circuito foi mesmo criado em torno de onze grandes hotéis que delineiam, com traços criativos, o “skyline” da marina de Cingapura. Uma pequena área da cidade foi interrompida ao tráfego para dar lugar à Fórmula 1. O trânsito, exclusivo para táxis, é desviado para dentro do estacionamento de um shopping center que faz a ligação subterrânea entre os hotéis mais colados à pista. Não foi fácil montar o circuito que passa sob vias expressas e cruza duas pontes. Mas este Grande Prêmio, o primeiro disputado à noite, veio pra ficar.

Os 5.148 quilômetros de trilhos de alumínio que sustentam 1.500 projetores de luz custaram 20 milhões de dólares de um total de 180 milhões gastos na organização, e garantem uma iluminação quatro vezes mais intensa que a de um estádio em jogos de futebol. E não tem como falhar em momento algum. Alimentada por três sistemas independentes, é preciso que aconteçam três problemas distintos, ao mesmo tempo, para ocorrer uma interrupção.

Já que não se entra na pista de carro, o melhor é conhecê-la a pé. Mas como, se isso também é proibido? A solução é andar junto com pilotos de F-1. E lá vamos nós num passeio curioso, iniciado à uma e meia da madrugada de quarta-feira, horário em que, véspera de corrida, os pilotos costumam estar dormindo. Felipe Massa e Rubens Barrichello, um pretendente ao título e aquele que tem mais corridas disputadas (267). Juntos, 19 vitórias e uma amizade já de alguns anos, desde antes de Felipe chegar à F-1. Em cada curva, conversam sobre as marchas de câmbio, baseados nos conhecimentos adquiridos em simuladores. Massa treinou bastante no simulador e conseguiu chegar a 1min40seg no tempo de volta virtual. Mas, caminhando na pista, vê que a chicane tem tartarugas bem altas, que não permitem passar sobre as zebras. As tartarugas não existem no simulador.

Em cada pista nova o piloto faz as curvas com as marchas que o simulador propõe, mas logo na primeira volta sente o que está certo ou errado pela rotação do motor. O simulador não prevê tipo de asfalto, pressão atmosférica, mas se aproxima muito do real na relação de marchas do câmbio. Quando há alteração, é mínima. Uma das curvas, a 12, é identificada por eles através do painel luminoso de um bar chamado Fullerton. Aí é a visão da mulher que fala mais alto. Rafaella, mulher de Felipe, diz que cansou de ver aquela curva na tela do simulador nas últimas semanas. Curioso, Felipe não se lembrava do painel, mas conhecia cada detalhe do ponto de tangência da curva. Cada um com seu foco. Rubinho se senta no asfalto para testar o reflexo das luzes na altura dos olhos do piloto dentro do cockpit. Nenhum problema. A iluminação só pode trazer preocupação se chover.

Novos passos, mais brincadeiras, algumas interrupções do pessoal da segurança e as explicações – “somos pilotos”. E vamos em frente. Curvas mais fechadas, muros de concreto e Felipe, brincando com a mãe, Ana, que o acompanha na caminhada, bate a mão para mostrar a dureza do muro. A mãe não acha nenhuma graça. Rubinho se diverte com a brincadeira. Termina a volta. Desta vez, durou 1 hora e 15 minutos. Muito longe da pole position. Quase 3 da madruga, hora de dormir pela nova configuração do relógio biológico. Ainda bem que os hotéis criaram horários especiais de café da manhã, que vai das 9 às 14 horas.


Extraido da Edição nº 93 da Revista Speedway

      

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